Sou hedonista como o Romano.
Sem distinção dos prazeres me entrego como o vento se entrega a janela, como o dia se entrega a noite, como a poesia se entrega ao poeta.
Abro as pernas da vida como a puta se abre para o cliente.
Como a flor de lótus se abre ao iluminado.
Murmuro para o universo uma constelação de gemidos que só se entende nos lençóis.
Nenhum prazer é descartado, nenhum corpo é o ideal, sinto-me um canalha, sinto-me um príncipe sinto-me até Deus.
Tudo se vai e sinto-me casto de novo.
O ócio pós-gozo esconde os afetos que não são muitos.
A carne vale agora mais que qualquer outra coisa, vale muito mais que a própria certeza de estar vivo.
Passa-se um tempo, a castidade se vai novamente.
É tudo um pretexto para fazer um capricho do corpo.
Pretexto para mordiscar a maçã.
Carrego nos ombros o desejo do atrito constante contra a pele de quem amo.
E de quem não amo.
Mudo como o mar, prendo-me em pernas sem amor, em pelos sem pudor.
Saio correndo por vales e jardins sem nenhum Éden.
Ensaiando um samba mudo sem percussão me entrego a força desse prazer carnavalesco.
E eu digo: Bendito seja o fruto do nosso suor!
A noite chega e me dá como recompensa a folga, tenho agora em mim ainda o cansaço do prazer e mais fogo para fazer de novo essa estripulia barata que a insistem em chamar de sexo.