domingo, 10 de abril de 2011

Victor e Jezebel


Após oitenta anos de estrada, estavam lá eles sentados em suas cadeiras de balanço no jardim da humilde casa, com algumas pequenas flores espalhadas pelo canteiro. Eram muito amigos, o tempo lhe deu essa virtude, mas não mais amantes. Esse mesmo tempo se encarregou de levar embora qualquer tipo de desejo. Já estavam naquela fase de calmaria esperando o tempo passar com tanta impaciência quanto uma criança com fome.                              
Já eram cerca de cinco da tarde, o sol ao se preparava para dormir. Jezebel era muito vaidosa em vida, digo quando jovem, aplicam tanta falta de importância aos velhos que me pego falando como se ela já tivesse morrido. Gostava de se arrumar, se maquiar, usar bijuterias e se vestir com belos tecidos o seu preferido era o cetim. Victor já não tinha a mesma virilidade de antes e isso era de se esperar, muito além de Jezebel outras puderam experimentar a força animalesca que ele fazia questão de aplicar quando estava realizando o seu desempenho de varão.                                                                                                                                                                  Nunca tiveram filhos, no passado queriam ter muitos, mas com tantas tentativas e sem os recursos óbvios que dispomos atualmente, não puderam fazer nada um pelo outro, apenas contar com boa vontade de um velho amigo chamado tempo que por sua vez não estava sendo muito favorável a eles. Em quase nada concordavam.                                        
 O desejo de ter crianças brincando no jardim foi compensado com um gato pardo e uma jandaia, coisa que Victor nunca gostou muito, mas Jezebel se distraia ensinado o bichinho a dançar cantigas de roda. O gato por sua vez continuava sempre ali em estado de não fazer nada, cobrando algumas vezes cheio de interesse um pouco de carinho e espaço. A jandaia foi presente de um vizinho, presente não foi mesmo ele quem trouxe da chácara pois não suportava o bicho e para que as crianças que o adoravam pudessem vê-lo sempre, achou por bem dar para dona Jezebel que sempre lhe mandava uns pedaços de bolos mofados com muita boa vontade, mas as vistas carregadas a impediam de enxergar qualquer tipo de obstáculo que impedisse alguém de comer um simples pedaço de bolo.                                         
 Victor não mais como antes estava com brilho nos olhos, queria apenas ficar ali sentado na cadeira ao lado do gato pardo, que já se esticava com menos força também. Todos os dias eram iguais, não havia mais o vigor e o brilho de antes, estava tudo ficando muito chato, até os favores que antes eram solicitados com tanta vivacidade já tinham tornando-se motivo de vergonha, medo. Não seria assim se ao chegarmos a tal tempo de velhice fossemos ainda tratados com o mesmo respeito de antes, mas infelizmente cabelos brancos hoje em dia são sinais de “deixa estar”. As mãos trêmulas dadas ao anoitecer eram muito mais que um simples contato, ali naquele gesto estava o que nunca haviam percebido, encontrava-se ali naquele instante o grande desejo esquecido por eles, não tinham o mínimo de ideia do quão lindo era aquele simples ato de dar as mão ao por do sol, era a renovação diária dos seus votos de amor, mesmo que não o fizessem mais por grande impulso intencional estavam ali juntinhos, lado a lado firmando com os céus o grande mistério da vida carregado de amor. Afinal numa tarde linda como aquela e ao mesmo tempo tão igual as outras tarde que já estiveram juntos estavam ali Victor e Jezebel, confirmando o que ninguém conseguia compreender em tanto tempo, motivos que só eles vão poder explicar para estarem ainda tanto tempo juntos. Na verdade Victor e Jezebel despedindo-se do sol todas as tardes não eram muito diferentes de nada. Para eles tudo ainda era com tinha de ser. E só.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Papaya com Cassis


Tens tanta doçura que me assusta.
 Fico cheio de medo desse novo sabor.
 Preciso entender o que está por trás de tanta fantasia.
Seria loucura todo esse entendimento entre nós?
Acaso ou distração?
Percebo entre os verbos tortos uma nova forma de ver o mundo, um novo começo, uma forma de tentar suavizar a voz rouca que existe em mim.
Um juramento sem palavras vindo para os meus braços, confortando minha alma inquieta.
Eu aqui buscando suportar essa estrada torta, sem nenhum argumento que eu possa defender. Nenhuma canção que eu possa cantar.
Livra-me desse mal de não me expressar.
É minha distração ficar assim... Falar assim.
Vamos deixar pra mais tarde todos os compromissos e trazer pra esse deserto uma nova espécie daquelas sedentárias pra ficar aqui o tempo todo.
Serão anos de espera para depois jogarmos as cartas seguindo um ao outro.
Arranque essas cercas que nos separa.
Vamos pegar a estrada de gente, com a mochila nas costas e correr pra esse mundo desconhecido que eu quero ser dono e você também.

Clave de Sol


...ousadia, risos, calma, cascas, instintos, medos...
Sem pressa vamos suavizando tudo, com gentileza caminhando para olhares firmes e distorcidos.
O relógio para e nos observa a cada segundo, esperando essa nossa composição.
Agora um soneto.
Aqui um samba.
Ali uma bossa.
Depois um rock.
Pra acalmar um tango.
Pra respirar um Jazz.
Pra descansar um lounge.
Depois eu volto a fazer um solo.
Pra você uma salsa.
Pra mim um choro.